Poesia e Depressão:

"Sá-Carneiro não teve biografia: teve só gênio.
O que disse foi o que viveu."
Fernando Pessoa

Assim que me  propus  a analisar a influência da doença psiquiátrica de Mário de Sá Carneiro em sua obra, percebi que seria um desafio hercúleo. Trata-se de um tema que me é completamente estranho e, provavelmente, pouco explorado por outros mais gabaritados. Não sou psiquiatra muito menos literato. As minhas ferramentas estão em mim mesmo. A vivência extraída dos meus episódios depressivos associada ao meu gosto por poesia me levam a essa empreitada. Nada do que se lê a seguir é técnico. Trata-se apenas de mais uma das tantas interpretações subjetivas da pequena, mas intensa obra de Mário de Sá Carneiro.

Sá Carneiro era tido como socialmente desajustado. Em suas cartas a Fernando Pessoa confessava todo o seu sofrimento e descontentamento com os pequenos entraves da sociedade. Chegou mesmo a escrever-lhe sobre seu crescente desejo de cometer suicídio, o que se concretizou em 1916. Gostava da vida boemia, de viver entre as prostitutas e desarranjados da noite parisiense. Nunca concluiu a faculdade de direito. Participou ativamente do polêmico movimento modernista português. De 1912 até sua morte em 1916, o agravamento do seu quadro depressivo, ao mesmo tempo que inviabilizava cada vez mais seu convívio social, fornecia substrato para a grandeza sua obra. Nesse período publicou os poemas: “7”, “Dispersão” (1913), “Quase” (1914), “Como Eu Não Possuo“, “Fim” (1916), “Epígrafe“, “Alcool“, e a novela “Confissões de Lúcio“.

Mário de Sá Carneiro não pode se beneficiar de um tratamento psiquiátrico eficaz devido as limitações médicas de sua época. Não há relatos de um diagnóstico preciso firmado antes de sua morte. Sendo assim, a mesma doença que o levou ao suicídio, talvez tenha sido a ferramenta que permitiu que ele escrevesse com tamanho brilhantismo e sensibilidade, destacando-se entre grandes nomes como Fernando Pessoa.

Para isso decidi destacar trechos e identificar os critérios para diagnóstico de depressão em alguns poemas. Afinal, eles são a representação mais fidedigna do interior do poeta.

Não me atrevo a desqualificar nenhuma das análises a que pude ter acesso. Contudo, nada pude encontrar sobre a doença psiquiátrica como influência ou inspiração. Ao que me parece tal omissão é importante já que em toda obra de MSC estão presentes características depressivas e de sofrimento, perda, descontrole ou morte.

Talvez o poema mais interessante de se analisar seja o Dispersão.

1 – Humor Deprimido

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:

2 – Perda do Interesse/Prazer

Regresso dentro de mim
Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada,
Sequinha, dentro de mim.

3 – Perda de Energia

A grande ave dourada
Bateu asas para os céus,
Mas fechou-as saciada
Ao ver que ganhava os céus.

4 – Sentimentos de Culpa ou Menos-valia

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

5 – Pensamentos de Morte ou Ideação Suicida

E sinto que a minha morte —
Minha dispersão total —
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.

Vejo o meu último dia
Pintado em rolos de fumo,
E todo azul-de-agonia
Em sombra e além me sumo.

Poderia-se dizer que trata-se apenas do eu lirico, porém a forma como MSC viveu condiz com o seu quadro depressivo. Assim, me parece bastante plausível pensar num depressivo escrevendo, deprimido, coisas deprimentes. Apesar de bastante reducionista, acredito que esta é uma forma de encarar a obra de MSC: poesia produto de uma mente doente.